O aglomerado de estrelas que os gregos já enxergavam a olho nu, e que ainda existe no mesmo lugar

O aglomerado de estrelas que os gregos já enxergavam a olho nu, e que ainda existe no mesmo lugar

Existe um pequeno aglomerado de estrelas no céu noturno que praticamente nenhuma civilização antiga, em nenhum canto do planeta, deixou de notar. Gregos, egípcios, maias, aborígenes australianos, povos da Polinésia, tribos indígenas norte-americanas — todos, de forma independente, olharam para o mesmo grupo compacto de estrelas e decidiram que ele merecia um nome, uma história, um lugar na própria mitologia. É um dos raros casos na astronomia em que um objeto celeste específico atravessa culturas completamente isoladas entre si, ao longo de milhares de anos, sempre chamando atenção da mesma forma.

Esse aglomerado se chama Plêiades — e ele ainda está exatamente no mesmo lugar do céu onde estava há milênios, disponível para qualquer pessoa hoje observar exatamente a mesma cena que gregos antigos observavam a olho nu, sem nenhum equipamento.

O que exatamente são as Plêiades

Tecnicamente, as Plêiades são um aglomerado estelar aberto, catalogado como M45, localizado na constelação de Touro, a uma distância de aproximadamente 444 anos-luz da Terra — relativamente próximo, em termos astronômicos, o que ajuda a explicar por que ele é tão facilmente visível a olho nu, apesar de ser formado por estrelas individuais, e não por um único corpo celeste.

Um aglomerado estelar aberto é um grupo de estrelas que nasceram, literalmente, juntas — a partir da mesma nuvem gigantesca de gás e poeira interestelar, num intervalo de tempo relativamente curto, em termos astronômicos. Diferente de constelações, que são apenas agrupamentos aparentes de estrelas sem nenhuma relação física real entre si, projetadas de forma coincidente na mesma direção do céu vistas da Terra, as estrelas de um aglomerado aberto realmente estão fisicamente próximas umas das outras no espaço, viajando juntas, unidas pela gravidade mútua, pelo menos por um período de sua história.

As Plêiades são consideradas relativamente jovens em termos astronômicos, com idade estimada entre 75 e 150 milhões de anos — jovens o suficiente para que suas estrelas ainda sejam predominantemente quentes, azuis e brilhantes, características típicas de estrelas recém-formadas em termos cósmicos.

Por que o nome popular é “Sete Irmãs”, mesmo tendo muito mais estrelas

Apesar do apelido consagrado de “Sete Irmãs”, presente em praticamente toda cultura que já documentou esse aglomerado, as Plêiades contêm, na verdade, centenas de estrelas confirmadas — estimativas mais recentes apontam para mais de mil estrelas fazendo parte do aglomerado como um todo, a maioria delas fraca demais para ser vista sem equipamento.

O motivo do nome “sete” é simples e prático: a olho nu, em condições normais de céu razoavelmente escuro, a maioria das pessoas consegue distinguir entre seis e sete estrelas individuais dentro do aglomerado — as mais brilhantes do grupo, formando um padrão compacto e reconhecível, parecido com uma miniatura da constelação da Ursa Maior, mas numa escala visualmente muito menor e mais concentrada.

Pessoas com visão excepcionalmente aguçada, ou observando sob condições de céu absolutamente perfeitas, longe de qualquer poluição luminosa, já relataram conseguir distinguir até nove ou dez estrelas individuais a olho nu — um teste, inclusive, historicamente usado como uma forma informal de avaliar a acuidade visual de uma pessoa, em culturas que reconheciam esse aglomerado havia gerações.

Por que praticamente toda cultura antiga notou exatamente esse aglomerado

Existe uma razão prática, não só estética, por trás da presença universal das Plêiades em mitologias tão diferentes entre si. Esse aglomerado é brilhante o suficiente para ser visível a olho nu mesmo com alguma interferência de luz ambiente, tem um formato compacto e reconhecível, fácil de localizar repetidamente noite após noite, e sua posição no céu, ao longo do ano, estava historicamente associada a mudanças sazonais relevantes para sociedades agrícolas e de caça em praticamente qualquer lugar do planeta.

Na mitologia grega, as Plêiades eram as sete filhas do titã Atlas, transformadas em estrelas — segundo diferentes versões do mito, para escapar da perseguição do caçador Órion, ou para consolar o próprio Atlas, condenado a sustentar o peso do céu nos ombros. O nome de cada uma das sete estrelas mais brilhantes do aglomerado, usado até hoje pela astronomia moderna, vem diretamente dessas sete figuras mitológicas: Alcíone, Maia, Electra, Taígete, Celeno, Astérope e Mérope.

Culturas indígenas australianas, completamente isoladas geograficamente de qualquer influência grega, desenvolveram histórias notavelmente parecidas — envolvendo, em muitas versões regionais, um grupo de sete irmãs sendo perseguidas por um caçador, uma coincidência temática que intriga antropólogos até hoje, dado o isolamento cultural completo entre essas civilizações ao longo de milhares de anos.

Povos maias e astecas, na América Central, também associavam esse aglomerado a marcações de tempo extremamente precisas, usando o momento exato em que as Plêiades desapareciam e reapareciam no céu, ao longo do ciclo anual, como referência para determinar datas de plantio, colheita e até cerimônias religiosas específicas.

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A ciência real por trás do “brilho azulado” característico

Observando as Plêiades com um telescópio de longa exposição fotográfica, ou mesmo binóculos de boa qualidade em condições excelentes, é possível notar um detalhe visual sutil, mas cientificamente significativo: as estrelas do aglomerado parecem envoltas por uma névoa azulada tênue.

Essa névoa é uma nebulosa de reflexão real — não é um efeito óptico nem artefato fotográfico. Ela é formada por uma nuvem de poeira interestelar que, coincidentemente, o aglomerado está atravessando em sua trajetória atual pelo espaço. Essa nuvem de poeira, apesar de não ter relação de origem com a formação das próprias estrelas das Plêiades — é uma nuvem completamente diferente, encontrada por acaso no caminho do aglomerado —, reflete a luz azulada intensa emitida pelas estrelas jovens e quentes do grupo, criando esse brilho característico visível em fotografias de longa exposição.

Por que as Plêiades vão, literalmente, desaparecer um dia

Apesar de parecerem um objeto fixo e eterno no céu, as Plêiades, como qualquer aglomerado estelar aberto, têm um destino de longo prazo já bem compreendido pela astronomia: elas vão, eventualmente, se dissolver completamente.

Aglomerados abertos são estruturas relativamente frágeis, do ponto de vista gravitacional, comparados a outros tipos de agrupamentos estelares mais densos e antigos, como os aglomerados globulares. Ao longo de centenas de milhões de anos, a interação gravitacional entre as próprias estrelas do aglomerado, combinada com a influência gravitacional externa da própria galáxia ao seu redor, vai gradualmente espalhando as estrelas, uma a uma, até que elas se dispersem completamente pela galáxia, deixando de existir como um grupo unido reconhecível.

Estimativas científicas atuais sugerem que as Plêiades devem permanecer identificáveis como aglomerado por ainda algumas centenas de milhões de anos, antes de se dissolverem definitivamente — o que significa que, em termos de escala de vida humana, ou mesmo de toda a história da civilização registrada até hoje, esse processo é praticamente imperceptível. As mesmas estrelas que gregos antigos observavam há milhares de anos ainda estarão lá, na mesma posição relativa, por muito mais tempo do que qualquer civilização humana já existiu.

Como localizar as Plêiades você mesmo, sem nenhum equipamento

Localizar as Plêiades a olho nu é consideravelmente mais simples do que boa parte dos objetos de céu profundo mencionados em outros artigos desta série, já que elas dispensam completamente qualquer equipamento e são visíveis mesmo com alguma poluição luminosa moderada.

A estratégia mais eficiente é primeiro localizar a constelação de Órion, uma das mais reconhecíveis do céu noturno, graças ao alinhamento característico de três estrelas formando o “cinturão de Órion”. A partir dali, seguindo numa direção específica (que varia conforme a época do ano e o horário de observação, sendo mais fácil verificar num aplicativo de astronomia atualizado), as Plêiades aparecem como uma pequena mancha compacta e levemente esbranquiçada, facilmente distinguível de qualquer estrela isolada ao redor, mesmo antes de conseguir separar visualmente as estrelas individuais que a compõem.

No hemisfério sul, incluindo o Brasil, as Plêiades são bem posicionadas para observação principalmente durante os meses do fim do ano e início do verão, quando o aglomerado sobe relativamente alto no céu noturno em horários convenientes de observação.

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Um dos poucos elos visuais diretos com a humanidade antiga

Existe algo raro e genuinamente comovente na ideia de observar as Plêiades hoje: você está, literalmente, vendo a mesma imagem no céu que civilizações completamente diferentes, separadas por milhares de quilômetros e milhares de anos de história, também observaram — sem telescópio, sem nenhuma tecnologia, só o olho humano apontado para o mesmo pedaço específico do céu noturno.

Poucos objetos astronômicos oferecem essa continuidade tão direta e tão universal entre culturas historicamente isoladas. Enquanto a maioria dos fenômenos astronômicos mais espetaculares — eclipses, cometas, chuvas de meteoros — são eventos passageiros, presos a datas e janelas específicas de observação, as Plêiades continuam ali, disponíveis, praticamente todas as noites do ano em algum horário específico, exatamente como estiveram disponíveis para cada geração humana que já ergueu os olhos para o céu, ao longo de praticamente toda a história registrada da nossa espécie.