Os lugares mais quentes do mundo já registraram temperaturas que ultrapassam os 50 °C. Em algumas regiões, o calor é tão intenso que permanecer ao ar livre durante as horas mais quentes do dia pode se tornar perigoso. Mas existe uma diferença importante entre um lugar que atingiu uma temperatura extrema em uma única tarde e outro que permanece quente durante praticamente o ano inteiro.

O Brasil também enfrenta ondas de calor severas. Em novembro de 2023, por exemplo, Araçuaí, em Minas Gerais, registrou 44,8 °C, marca divulgada pelo Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) como recorde nacional. Ainda assim, será que essa temperatura coloca o país entre os cinco lugares mais quentes do planeta?

A resposta depende do critério utilizado. Neste artigo, vamos examinar locais conhecidos por seus recordes extremos de temperatura do ar, explicar por que eles aquecem tanto e comparar esses valores com o recorde brasileiro. O objetivo não é misturar recordes oficiais com estimativas de temperatura do solo ou médias climáticas, porque essas medidas descrevem fenômenos diferentes.

Como definir os lugares mais quentes do mundo?

Antes de apresentar a lista, é preciso esclarecer o que significa ser um dos lugares mais quentes da Terra. Não existe apenas uma maneira de medir isso. Uma região pode apresentar uma temperatura máxima extraordinária em um dia específico, mas ter noites frias ou uma estação do ano relativamente amena. Outra pode não atingir o mesmo pico, mas permanecer quente durante meses.

Para montar uma comparação coerente, vamos considerar principalmente os recordes de temperatura do ar medidos em locais específicos. A Organização Meteorológica Mundial (OMM) mantém registros de extremos meteorológicos e avalia observações que podem estabelecer recordes mundiais ou regionais.

Esse critério exige alguns cuidados.

Primeiro, a temperatura precisa ser medida de forma adequada. As estações meteorológicas utilizam instrumentos instalados segundo procedimentos específicos, protegidos da radiação solar direta e posicionados para medir o ar, e não a superfície do chão. Um termômetro exposto ao Sol ou encostado em uma pedra aquecida não fornece uma medida comparável à temperatura oficial do ar.

Segundo, uma medição precisa ser analisada em seu contexto. A localização da estação, as condições meteorológicas, o instrumento utilizado e a qualidade dos registros históricos podem influenciar a avaliação de um recorde. Por isso, uma temperatura divulgada em uma notícia não deve ser automaticamente tratada como recorde mundial reconhecido.

Terceiro, é importante separar temperatura máxima de média climática. A máxima responde à pergunta: “Qual foi a maior temperatura registrada?”. A média climática ajuda a responder: “Quão quente esse lugar costuma ser ao longo do tempo?”. São perguntas relacionadas, mas não equivalentes.

A lista a seguir destaca locais que aparecem entre os extremos históricos de temperatura do ar reconhecidos ou amplamente documentados. Ela não representa um ranking definitivo de todos os lugares mais quentes quando se considera a média anual, a sensação térmica ou a temperatura do solo.

1. Vale da Morte, Estados Unidos: o recorde mundial de 56,7 °C

O Vale da Morte, conhecido em inglês como Death Valley, fica no estado da Califórnia, nos Estados Unidos, e é um dos lugares mais famosos do planeta quando o assunto é calor extremo. Em Furnace Creek, uma medição de 56,7 °C foi registrada em 10 de julho de 1913. Esse valor permanece reconhecido pela OMM como o recorde mundial oficial de temperatura do ar.

O número é impressionante, mas a geografia da região ajuda a explicar por que temperaturas tão altas podem ocorrer ali. O Vale da Morte é uma área desértica situada em uma depressão cercada por montanhas. Partes do vale ficam abaixo do nível do mar, e o terreno recebe intensa radiação solar durante o verão.

A região também é muito seca. Quando há pouca umidade disponível no solo e no ar, uma parcela menor da energia solar é utilizada na evaporação da água. Em condições favoráveis, mais energia contribui para aquecer a superfície e o ar próximo dela. O céu frequentemente limpo permite que a radiação solar alcance o solo com pouca interferência das nuvens.

A forma do relevo também participa desse processo. O ar que desce pelas encostas pode aquecer por compressão, e as montanhas ao redor ajudam a delimitar a circulação do ar no vale. Esses fatores, combinados com a forte insolação e a aridez, criam condições favoráveis ao calor extremo.

Isso não significa que todo o Vale da Morte esteja sempre perto dos 56 °C. O recorde representa uma observação excepcional, não a temperatura constante da região. As condições mudam com a estação, a hora do dia e os sistemas atmosféricos que atuam sobre a área.

Também existe uma questão histórica. A medição de 1913 é reconhecida oficialmente, mas alguns especialistas já questionaram a confiabilidade de antigos registros meteorológicos, incluindo o do Vale da Morte. A OMM mantém procedimentos de avaliação para examinar essas observações. O fato importante para esta comparação é que 56,7 °C continua sendo o recorde mundial oficialmente reconhecido na tabela consultada.

O Vale da Morte, portanto, ocupa um lugar central em qualquer discussão sobre extremos de calor. Mas ele não é o único lugar onde o ar já ultrapassou os 50 °C.

2. Kebili, Tunísia: o calor extremo do norte da África

Kebili, na Tunísia, é uma localidade associada a um dos maiores registros históricos de temperatura do ar fora dos Estados Unidos. Em 7 de julho de 1931, foi registrada uma temperatura de 55 °C, valor reconhecido como o recorde extremo da região africana em compilações meteorológicas internacionais.

A Tunísia fica no norte da África, uma região que inclui áreas desérticas e semiáridas influenciadas pelo Saara. A proximidade com o deserto, a baixa disponibilidade de água e a intensa radiação solar podem favorecer temperaturas muito elevadas, especialmente durante o verão.

Em regiões áridas, a água é um fator decisivo. Em uma área úmida, parte significativa da energia que chega ao solo pode ser consumida na evaporação. Esse processo retira energia da superfície e ajuda a limitar seu aquecimento. Em ambientes muito secos, a evaporação pode ser mais restrita, deixando uma parcela maior da energia disponível para aquecer o terreno e o ar.

A cobertura de nuvens também importa. Nuvens espessas refletem e absorvem parte da radiação solar, enquanto um céu limpo permite maior incidência de luz sobre o solo durante o dia. Quando o ar é seco e o Sol está forte, a superfície pode aquecer rapidamente.

É importante, porém, não imaginar que todo o norte da África tenha o mesmo clima. A região apresenta diferenças de altitude, relevo, distância do mar e circulação atmosférica. O litoral pode ter condições diferentes das áreas interiores, e a temperatura de uma localidade não representa automaticamente a de um país inteiro.

O registro de Kebili também é antigo. Como ocorre com outros extremos meteorológicos históricos, a data e o valor precisam ser entendidos no contexto dos métodos de observação da época. A OMM considera a qualidade das evidências ao avaliar recordes. Registros históricos continuam úteis, mas não devem ser confundidos com medições feitas por instrumentos e procedimentos modernos sem qualquer diferença metodológica.

Mesmo com essa ressalva, Kebili é uma referência importante para compreender o calor extremo no Saara e em suas regiões vizinhas. O local mostra que os maiores valores de temperatura do ar não estão restritos a um único continente.

3. Mitribah, Kuwait: quase 54 °C em uma medição avaliada pela OMM

Mitribah, no Kuwait, registrou 53,9 °C em 21 de julho de 2016. A OMM avaliou formalmente a observação e reconheceu o valor com uma margem de incerteza de aproximadamente 0,1 °C. O registro está entre os maiores extremos de temperatura do ar reconhecidos internacionalmente.

O Kuwait fica na região do Golfo Pérsico, onde os verões podem ser extremamente quentes. A combinação de radiação solar intensa, ar quente e condições atmosféricas regionais contribui para máximas elevadas. Em determinadas situações, massas de ar muito quente permanecem sobre a região e favorecem vários dias de calor intenso.

A presença do Golfo Pérsico não impede que ocorram temperaturas altas. O mar pode moderar algumas variações térmicas, mas também fornece umidade ao ar. Isso cria uma diferença importante entre temperatura e sensação térmica: quando a umidade é elevada, o suor evapora com menos eficiência, dificultando a perda de calor pelo corpo.

Em outras palavras, o calor seco de um deserto e o calor úmido de uma região costeira podem produzir desconfortos diferentes. Um local pode apresentar uma temperatura do ar menor e, ainda assim, impor grande estresse térmico quando a umidade é alta. Por isso, comparar apenas o número exibido em um termômetro não descreve completamente o risco para a saúde.

O registro de Mitribah também ilustra a importância de avaliar os dados antes de estabelecer um recorde. A medição inicialmente divulgada foi examinada por especialistas, que verificaram as condições e aplicaram uma margem de incerteza. Esse processo permite distinguir uma observação validada de uma medição que ainda precisa de análise.

A temperatura de 53,9 °C não significa que esse seja o valor normal do verão kuwaitiano, nem que todas as cidades do país alcancem temperaturas semelhantes. Ela representa um extremo medido em uma estação específica e em uma data determinada.

O caso do Kuwait ajuda a mostrar por que os registros de calor precisam ser analisados com rigor: diferenças de décimos de grau podem parecer pequenas, mas são relevantes quando se pretende comparar extremos meteorológicos.

4. Turbat, Paquistão: o calor extremo no sul da Ásia

Turbat, localizada na província do Baluchistão, no Paquistão, registrou 53,7 °C em 28 de maio de 2017. A OMM avaliou essa observação e a reconheceu como um dos maiores extremos de temperatura do ar registrados no planeta, com uma margem de incerteza maior que a associada à medição do Kuwait.

A cidade fica em uma região árida do sudoeste paquistanês. O terreno, a escassez de umidade e as condições atmosféricas regionais podem favorecer temperaturas muito elevadas antes mesmo do auge do verão no hemisfério norte.

O mês de maio é particularmente relevante porque o aquecimento continental já pode estar intenso em partes do sul da Ásia. A superfície terrestre aquece durante a primavera, e massas de ar quente podem se estabelecer sobre áreas interiores. Quando há pouca chuva e a umidade do solo é reduzida, a energia solar contribui fortemente para elevar a temperatura da superfície e do ar próximo dela.

No entanto, os extremos de calor não dependem apenas da latitude. Dois lugares relativamente próximos podem registrar temperaturas diferentes por causa da altitude, da circulação dos ventos, da cobertura de nuvens, da umidade e das características locais do terreno.

O Paquistão também tem regiões de clima muito diferente. Áreas montanhosas podem ser bem mais frias, enquanto planícies e vales interiores podem sofrer calor extremo. Por isso, não seria correto descrever o país inteiro com base na medição feita em Turbat.

O recorde de 53,7 °C mostra, ainda, que as temperaturas extremas não são exclusivas do Saara ou de partes da América do Norte. Regiões áridas da Ásia também podem alcançar valores comparáveis aos maiores registros históricos do mundo.

É necessário evitar uma interpretação comum, mas incorreta: uma temperatura de 53,7 °C não significa que a cidade tenha permanecido acima de 50 °C durante todo o dia ou durante semanas. A medição corresponde a um pico observado em um momento específico. A duração do calor e as temperaturas noturnas são informações adicionais necessárias para descrever a intensidade de uma onda de calor.

5. Tirat Zvi, Israel: um extremo histórico no vale do Jordão

Tirat Zvi, em Israel, é associada a um registro de 54 °C em 21 de junho de 1942, citado em compilações de extremos meteorológicos. O valor aparece entre os maiores registros históricos de temperatura do ar, embora seja importante observar a classificação geográfica e os critérios utilizados em cada lista internacional.

A localidade está no vale do Jordão, uma região de baixa altitude. O relevo pode influenciar bastante a temperatura: áreas situadas em depressões ou vales podem apresentar condições diferentes das regiões montanhosas próximas. A altitude é um dos fatores que afetam a temperatura do ar, embora não seja o único.

O vale do Jordão também está em uma região de clima quente e relativamente seco em determinadas épocas do ano. A intensa radiação solar durante o verão, associada a condições atmosféricas favoráveis, pode produzir máximas elevadas.

O registro de 1942 precisa ser tratado com o cuidado aplicado aos demais extremos antigos. Uma compilação pode incluir valores históricos que foram reconhecidos por uma autoridade meteorológica, mas o modo de organizar as regiões do mundo varia entre fontes. Por exemplo, algumas classificações tratam o Oriente Médio em conjunto com uma região continental mais ampla, enquanto outras apresentam a área separadamente.

Por isso, é mais preciso dizer que Tirat Zvi tem um registro histórico de 54 °C do que afirmar, sem qualificação, que existe um único ranking universal e imutável dos cinco pontos mais quentes da Terra. A lista depende de como são definidos os limites geográficos, quais observações foram avaliadas e se a comparação considera recordes mundiais, continentais ou nacionais.

O caso continua sendo útil para compreender a diversidade de locais capazes de registrar calor extremo. Não é apenas a existência de areia ou de um grande deserto que determina a temperatura: altitude, relevo, circulação atmosférica, umidade e condições meteorológicas de curto prazo também importam.

O Brasil entra no ranking dos lugares mais quentes do mundo?

O Brasil tem registros de calor extremo, mas seu recorde nacional fica abaixo dos maiores extremos de temperatura do ar reconhecidos mundialmente. Segundo o INMET, Araçuaí, em Minas Gerais, alcançou 44,8 °C em 19 de novembro de 2023, estabelecendo o recorde nacional divulgado pelo instituto.

A diferença em relação aos 56,7 °C do Vale da Morte é de 11,9 °C. Comparar esses dois valores não significa que o Brasil seja imune ao calor perigoso. Significa apenas que, pelo critério de máxima temperatura do ar registrada em uma estação, o recorde brasileiro não supera os maiores valores históricos listados acima.

Também não é correto concluir que o Brasil não possa ter regiões com calor persistente ou sensação térmica elevada. O país é extenso e apresenta diferentes climas. Algumas regiões enfrentam períodos de calor intenso, secas, baixa umidade e ondas de calor; outras podem combinar temperaturas altas com umidade elevada, aumentando o desconforto térmico.

A sensação térmica depende de mais do que a temperatura do ar. A umidade influencia a evaporação do suor, o vento altera a troca de calor entre o corpo e o ambiente, e a radiação solar aumenta a carga térmica sobre uma pessoa que está exposta diretamente ao Sol. Por isso, a experiência de calor em uma cidade brasileira pode ser muito desconfortável mesmo quando o termômetro marca menos que os recordes de regiões desérticas.

Araçuaí fica no Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais. O recorde ocorreu durante uma onda de calor que atingiu diversas partes do país em novembro de 2023. Naquele episódio, outras cidades também registraram máximas muito altas, segundo dados do INMET. Esse contexto é importante: um recorde isolado não surge necessariamente por causa de uma única característica geográfica, mas da interação entre o clima regional e as condições meteorológicas presentes naquele período.

O registro brasileiro também ajuda a esclarecer uma confusão comum entre recorde de uma cidade, recorde de um estado e recorde nacional. Um município pode registrar a maior temperatura do dia sem possuir o recorde histórico do país. Da mesma forma, o fato de uma região ter verões muito quentes não significa que ela tenha registrado o maior valor já observado no território nacional.

Então, o Brasil entra no ranking dos cinco lugares mais quentes do mundo? Não entre os primeiros colocados quando a comparação utiliza os recordes extremos de temperatura do ar citados neste artigo. O país, porém, pode registrar calor perigoso, e o recorde de 44,8 °C mostra que as temperaturas nacionais podem se aproximar de 45 °C em condições excepcionais.

Por que esses lugares ficam tão quentes?

Não existe uma única explicação para o calor extremo. Em geral, os maiores valores surgem quando vários fatores atuam ao mesmo tempo. Entre eles estão a radiação solar intensa, a baixa umidade do solo, a pouca cobertura de nuvens, a circulação de massas de ar quente e as características do relevo.

1. A energia do Sol aquece a superfície

A principal fonte de energia que aquece a superfície terrestre é a radiação solar. Durante o dia, o solo absorve parte dessa energia e transfere calor para o ar próximo. A quantidade absorvida depende de fatores como o ângulo de incidência da luz, a duração do dia, as nuvens, a cor e as propriedades da superfície.

Em regiões de céu aberto, a radiação solar pode atingir o solo com grande intensidade. Se o terreno estiver seco e houver pouca vegetação, as condições podem favorecer o aquecimento da superfície. Isso não significa que toda região desértica seja automaticamente mais quente que qualquer região tropical, pois a temperatura também depende do movimento do ar e de outros fatores climáticos.

2. A falta de água reduz o resfriamento por evaporação

Quando a água evapora, ela consome energia. Esse processo ajuda a resfriar superfícies úmidas e é parte importante do funcionamento do clima. Em áreas secas, a evaporação pode ser limitada pela falta de água disponível, e uma parcela maior da energia recebida pode contribuir para elevar a temperatura do solo e do ar próximo.

A vegetação também influencia esse equilíbrio. Plantas liberam vapor d’água por transpiração, e a sombra das folhas pode reduzir o aquecimento direto do solo. Quando a cobertura vegetal é escassa, esses efeitos de resfriamento podem ser menores.

Isso ajuda a explicar por que a aridez é comum em regiões com calor extremo, mas não deve ser usada como explicação isolada. Há desertos de altitude elevada que apresentam noites frias, e áreas úmidas que enfrentam ondas de calor intensas.

3. A circulação atmosférica transporta ar quente

O ar não permanece parado sobre uma região. Ventos e sistemas de pressão transportam massas de ar, que podem trazer condições mais quentes ou mais frias. Quando uma massa de ar quente permanece sobre uma área durante vários dias, as temperaturas podem se elevar de forma persistente.

Em alguns episódios, a subsidência — movimento descendente do ar — também contribui para o aquecimento. À medida que o ar desce para regiões de maior pressão, ele é comprimido e sua temperatura aumenta. Dependendo das condições, esse processo pode ajudar a manter o céu limpo e reduzir a formação de nuvens.

4. O relevo altera as condições locais

Montanhas, planícies, vales e depressões influenciam a circulação do ar e a temperatura. Locais situados em baixas altitudes podem apresentar temperaturas diferentes das áreas elevadas próximas. Vales cercados por montanhas podem desenvolver condições específicas de circulação e aquecimento.

Ainda assim, não existe uma regra simples segundo a qual todo vale seja mais quente que qualquer montanha ou todo lugar abaixo do nível do mar tenha calor extremo. O relevo atua em conjunto com a latitude, a umidade, a radiação solar e os sistemas meteorológicos.

5. O calor pode se acumular durante vários dias

Uma onda de calor não é definida apenas por uma máxima isolada. Ela envolve temperaturas excepcionalmente altas para uma região durante um período, de acordo com critérios meteorológicos específicos. Quando as noites também permanecem quentes, o corpo humano e os ambientes urbanos podem ter menos oportunidade de perder o calor acumulado.

A duração do episódio importa porque a exposição repetida dificulta a recuperação fisiológica, especialmente em pessoas que trabalham ao ar livre, idosos, crianças e indivíduos com determinadas condições de saúde. Por isso, uma onda de calor pode representar um risco importante mesmo sem superar um recorde absoluto.

Temperatura do ar, temperatura do solo e sensação térmica não são a mesma coisa

Uma das principais fontes de confusão nas listas sobre os lugares mais quentes do planeta é a mistura de diferentes tipos de temperatura.

A temperatura do ar é medida por instrumentos instalados em condições padronizadas, protegidos da radiação solar direta. É esse tipo de medida que costuma ser utilizado para estabelecer recordes meteorológicos oficiais.

A temperatura da superfície corresponde ao aquecimento do chão, da areia, de rochas, do asfalto ou de outras superfícies. Sob Sol forte, esses materiais podem ficar muito mais quentes que o ar. Uma superfície pode alcançar valores extremos sem que o ar a uma altura padronizada tenha atingido a mesma temperatura.

A sensação térmica é uma estimativa de como o corpo percebe o ambiente, considerando fatores como temperatura, umidade e vento. Em condições de umidade elevada, o suor evapora com menos eficiência, dificultando a dissipação de calor. A exposição direta ao Sol também pode aumentar a carga térmica sobre o corpo.

Essas diferenças explicam por que duas notícias sobre calor podem apresentar números muito diferentes sem que uma necessariamente contradiga a outra. Uma pode tratar da temperatura do ar, outra da superfície e uma terceira de um índice de sensação térmica.

Para comparar recordes mundiais, é necessário utilizar a mesma categoria de medida e observar se os dados foram verificados. Caso contrário, o ranking pode misturar grandezas que não são diretamente comparáveis.

É possível que um lugar seja mais quente que o Vale da Morte?

É possível que uma estação registre uma temperatura muito alta e que uma medição ainda precise de avaliação. Porém, um valor divulgado não passa automaticamente a substituir o recorde mundial. A observação precisa ser analisada quanto à qualidade do instrumento, ao posicionamento, às condições meteorológicas e à confiabilidade dos dados.

A OMM mantém um arquivo de extremos meteorológicos e publica avaliações de registros importantes. O valor de 56,7 °C do Vale da Morte permanece como o recorde mundial oficialmente reconhecido nas tabelas consultadas para este artigo. Há registros históricos contestados e observações de temperaturas muito elevadas que precisam ser distinguidas dos recordes formalmente avaliados.

Esse processo é importante porque os extremos climáticos atraem atenção e podem ser usados fora de contexto. Uma medição feita em uma superfície aquecida, por exemplo, não deve ser comparada diretamente com a temperatura do ar registrada em uma estação meteorológica padronizada.

A verificação científica não diminui a importância de uma onda de calor ou de uma temperatura elevada. Ela permite compreender o que foi medido, como foi medido e qual conclusão os dados realmente sustentam.

Os lugares mais quentes do mundo estão ficando ainda mais quentes?

A pergunta sobre recordes absolutos é diferente da pergunta sobre mudanças climáticas. Um recorde descreve um extremo observado em um local e em uma data. A mudança climática é avaliada por tendências de longo prazo, usando muitas medições e comparações com períodos de referência.

O aquecimento global aumenta a temperatura média do planeta e altera a probabilidade de vários extremos de calor. Em um clima mais quente, ondas de calor podem se tornar mais frequentes, intensas ou duradouras em muitas regiões. Os efeitos variam conforme o lugar e dependem também da variabilidade natural do clima.

Isso não significa que todos os locais que registraram um recorde histórico necessariamente estabelecerão um novo recorde todos os anos. O tempo atmosférico varia, e um recorde absoluto pode permanecer por décadas. A ausência de um novo recorde em uma estação não demonstra, por si só, que o aquecimento global parou.

Da mesma forma, um único dia muito quente não basta para medir a tendência climática de um país. Para investigar essa tendência, cientistas analisam séries temporais, médias, extremos, duração das ondas de calor e outros indicadores ao longo de períodos suficientemente longos.

O Brasil oferece um exemplo de como essas escalas devem ser separadas. O recorde de 44,8 °C em Araçuaí é uma observação extrema. Já a avaliação de como o clima brasileiro está mudando exige examinar séries de temperatura, distribuição das ondas de calor e diferenças regionais. São análises complementares, mas não intercambiáveis.

O calor extremo é perigoso mesmo sem um recorde mundial?

Sim. Para a saúde humana, o mais importante não é saber se uma cidade está entre as cinco mais quentes do planeta. O risco depende da temperatura, da umidade, da duração da exposição, da radiação solar, da ventilação e das condições de saúde de cada pessoa.

O organismo humano precisa manter sua temperatura interna dentro de uma faixa estreita. Uma das principais formas de perder calor é a evaporação do suor. Quando o ar está muito úmido, esse mecanismo funciona com menos eficiência. O corpo pode acumular calor mesmo quando a temperatura do ar está abaixo dos recordes registrados em desertos.

O esforço físico durante o calor aumenta a produção interna de calor. Trabalhar ao ar livre, praticar exercícios intensos ou permanecer em locais sem ventilação pode elevar o risco de problemas relacionados ao calor. Crianças, idosos e pessoas com doenças crônicas podem estar mais vulneráveis, assim como quem não tem acesso a ambientes frescos ou água suficiente.

Sinais como tontura, fraqueza intensa, dor de cabeça, náuseas e confusão exigem atenção. Confusão mental, desmaio ou alteração importante do estado de consciência durante exposição ao calor podem indicar uma emergência médica. Nesses casos, é necessário procurar atendimento de emergência e iniciar medidas de resfriamento seguras enquanto a ajuda chega.

Por isso, o Brasil não precisa atingir 50 °C para enfrentar uma situação perigosa. Temperaturas inferiores podem causar danos quando a exposição é prolongada, a umidade é alta ou as pessoas não conseguem se proteger adequadamente.

Afinal, quais são os cinco lugares mais quentes do mundo?

Se a comparação se basear em extremos históricos de temperatura do ar, o Vale da Morte, nos Estados Unidos, aparece no topo das listas oficiais consultadas, com 56,7 °C. Kebili, na Tunísia, tem o registro histórico de 55 °C. Mitribah, no Kuwait, foi avaliada com 53,9 °C, enquanto Turbat, no Paquistão, tem um registro avaliado de 53,7 °C. Tirat Zvi, em Israel, aparece em compilações com um registro histórico de 54 °C, embora a ordem exata de uma lista possa mudar conforme a fonte, a avaliação dos dados e os critérios geográficos adotados.

Portanto, esta lista não deve ser entendida como um ranking universal e definitivo dos cinco pontos mais quentes em todas as definições possíveis. É uma seleção de localidades com registros históricos extremos, com diferenças no nível de avaliação e na forma como cada fonte organiza os dados. Para uma classificação rigorosa, cada medição precisa ser comparada dentro do mesmo arquivo e segundo critérios equivalentes.

E o Brasil? Seu recorde nacional divulgado pelo INMET é de 44,8 °C em Araçuaí, Minas Gerais, em novembro de 2023. Esse valor é extremamente alto e mostra que o país pode enfrentar calor severo, mas fica abaixo dos principais extremos mundiais de temperatura do ar apresentados aqui.

A principal conclusão é que “o lugar mais quente” pode significar coisas diferentes. Um local pode deter um recorde de temperatura máxima, outro pode ter uma média anual muito elevada e um terceiro pode apresentar sensação térmica especialmente intensa por causa da umidade. Entender a diferença torna a comparação mais útil — e evita transformar números impressionantes em conclusões equivocadas.

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